O que significa ´laranja’ no universo contábil e jurídico?

Você já ouviu falar de alguém ser “laranja” em um negócio suspeito? Neste texto, explicamos o que é ‘laranja’, como a prática funciona no mundo contábil e jurídico, seus riscos e as consequências legais. Um guia direto, sem rodeios, para entender de verdade esse termo.
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A expressão “laranja” costuma aparecer em reportagens policiais, investigações financeiras e escândalos de corrupção. Mas nem todo mundo entende com clareza o que esse termo representa, especialmente no contexto jurídico e contábil. Ele não tem relação com a fruta, mas sim com uma figura usada para ocultar o verdadeiro responsável por um ato, geralmente ilícito.

Vamos explicar como esse termo surgiu, quais são as características de um “laranja”, como essa prática se manifesta em diferentes contextos, o que diz a legislação brasileira e quais as punições previstas. Tudo com uma linguagem direta e exemplos reais, para que você não só entenda o conceito, como também saiba reconhecer os riscos — inclusive para quem é usado como laranja sem saber.

O que significa ser “laranja”?

O “laranja” é alguém que empresta o nome ou os documentos para encobrir o verdadeiro responsável por uma empresa, conta bancária, imóvel ou qualquer outro bem. Em geral, essa pessoa é usada para dificultar a rastreabilidade de crimes como lavagem de dinheiro, corrupção, sonegação fiscal e ocultação de patrimônio.

Em muitos casos, o laranja assina papéis, abre CNPJs ou movimenta contas em seu nome, mas quem dá as ordens — e lucra com isso — é outra pessoa, que permanece escondida. Isso torna o laranja uma peça útil para criminosos que desejam operar à margem da lei.

Um exemplo comum ocorre quando uma empresa é aberta no nome de um parente, funcionário ou terceiro sem patrimônio. A empresa serve de fachada para movimentar dinheiro sujo, mas o verdadeiro dono não aparece em nenhum documento. É um método antigo, mas ainda bastante usado.

A origem do termo “laranja”

O uso da palavra “laranja” com esse significado tem origem popular, sem uma explicação única. Uma das hipóteses mais aceitas é que, assim como a fruta é usada para extrair o suco e depois descartada, o laranja também é utilizado apenas como fachada e, muitas vezes, abandonado quando surgem problemas legais.

A expressão começou a ganhar força nas décadas de 1980 e 1990, principalmente em investigações sobre crimes financeiros e corrupção no Brasil. Desde então, ela passou a fazer parte do vocabulário jurídico e jornalístico.

Quem costuma ser usado como laranja?

Pessoas com pouco conhecimento jurídico e baixa instrução são os alvos mais comuns. Também é comum que idosos, desempregados e até mesmo familiares sejam utilizados — muitas vezes sem saber — como sócios em empresas de fachada.

O atrativo, nesses casos, pode ser um pagamento simbólico, uma promessa de emprego ou até um favor. O problema é que, independentemente de saber ou não, quem aceita ser laranja responde pelas obrigações legais da empresa ou do bem que está em seu nome.

Por isso, é importante ficar atento: se alguém propuser abrir uma empresa ou conta bancária em seu nome, sem que você esteja diretamente envolvido no negócio, desconfie. Pode ser um esquema ilegal.

Como o “laranja” aparece no direito penal

No campo jurídico, o laranja pode ser enquadrado em diversos crimes, dependendo do contexto. Os principais são:

  • Falsidade ideológica (art. 299 do Código Penal): quando o laranja declara algo falso em documentos públicos ou particulares, como contratos sociais ou declarações fiscais;
  • Lavagem de dinheiro (Lei nº 9.613/1998): quando o laranja contribui para ocultar a origem de bens, direitos ou valores provenientes de atividades ilícitas;
  • Crime contra a ordem tributária (Lei nº 8.137/1990): quando o laranja atua para sonegar tributos ou fraudar o Fisco.

A punição varia de acordo com o crime e com o nível de envolvimento. Se for comprovado que a pessoa agiu de má-fé, ela pode responder criminalmente e ser condenada à prisão.

E se o laranja não souber que está sendo usado?

Essa é uma situação delicada. O desconhecimento pode atenuar a pena ou até afastar a responsabilidade criminal, desde que seja comprovado. No entanto, a responsabilidade civil — como dívidas em nome da pessoa ou bloqueios judiciais — ainda pode recair sobre ela.

É por isso que especialistas alertam: nunca assine documentos sem entender o conteúdo. Não empreste seu nome, CPF ou conta bancária para terceiros, mesmo que sejam parentes ou amigos. O risco pode ser muito maior do que parece.

Exemplo real: caso da Lava Jato

Um dos episódios mais conhecidos envolvendo laranjas foi revelado durante a Operação Lava Jato. Em diversas fases da investigação, a Polícia Federal descobriu que empresas de fachada estavam registradas em nomes de pessoas humildes, como motoristas ou faxineiras, que não tinham conhecimento do esquema.

Essas empresas eram usadas para movimentar milhões de reais desviados de contratos públicos. Em alguns casos, os “laranjas” foram processados por participação em crimes financeiros. Em outros, ficou claro que eram vítimas da situação.

Esse tipo de exemplo mostra que o uso de laranjas não é apenas um detalhe técnico — é uma estratégia usada em grandes esquemas criminosos, com impactos profundos para a sociedade.

Implicações contábeis e fiscais

No campo contábil, o uso de laranjas gera distorções nos registros financeiros. Uma empresa de fachada, por exemplo, pode ser usada para emitir notas frias, superfaturar contratos ou esconder patrimônio de sócios reais.

Isso prejudica o controle do Fisco, dificulta auditorias e mina a transparência dos negócios. Empresas envolvidas em esquemas com laranjas correm o risco de serem autuadas, descredenciadas e terem os bens bloqueados.

Além disso, os profissionais contábeis têm responsabilidade legal ao identificar irregularidades. O Conselho Federal de Contabilidade (CFC) estabelece, no Código de Ética, que o contador deve recusar participação em atividades ilícitas. Caso contrário, também pode responder por conivência.

Como identificar uma ‘empresa laranja’?

Alguns sinais podem acender o alerta:

  • Sócios sem vínculo real com a operação da empresa;
  • Falta de histórico empresarial dos responsáveis;
  • Endereços fantasmas ou compartilhados com outras empresas;
  • Atividades econômicas incompatíveis com o perfil dos sócios.

Ferramentas como a Receita Federal, juntas comerciais e sistemas públicos de consulta (como o Portal da Transparência) podem ajudar a verificar a autenticidade de uma empresa ou de seus sócios.

Como se proteger?

A melhor forma de se proteger é com informação e cautela. Veja algumas atitudes simples que evitam problemas sérios:

  • Nunca empreste documentos pessoais a terceiros;
  • Desconfie de propostas fáceis e promessas de dinheiro rápido;
  • Consulte um advogado ou contador antes de abrir uma empresa;
  • Revise com atenção qualquer documento antes de assinar;
  • Verifique se o CNPJ em seu nome realmente existe — isso pode ser feito no site da Receita Federal.

Se você descobrir que foi usado como laranja, procure ajuda jurídica imediatamente. Quanto antes agir, maiores as chances de evitar consequências graves.

O termo “laranja” pode até parecer inofensivo à primeira vista, mas representa uma prática séria, muitas vezes ligada a crimes graves. Ser laranja, mesmo sem saber, coloca a pessoa em risco de responder civil e criminalmente.

Por isso, é essencial entender o que está em jogo quando alguém pede para você “emprestar o nome”. No universo jurídico e contábil, transparência é mais do que uma boa prática — é uma proteção contra armadilhas!

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Escrito por
Analista de Conteúdo Pleno
Bárbara Pontelli Monteiro possui mais de 5 anos de experiência com redação SEO e escrita criativa. Tem licenciatura em Letras, bacharelado e licenciatura em História e MBA em Marketing Digital. Escreve também para a Editora Globo e tem passagens por grandes agências do mercado.
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