Fim escala 6x1: o que diz a lei e como ela impacta a contabilidade do seu negócio
A escala 6x1 pode estar com os dias contados. A PEC 148/2015 prevê jornada de 36 horas semanais e dois dias de descanso, sem redução salarial. A proposta ainda tramita no Congresso, mas já acende alerta para empresas que precisam reorganizar custos e turnos.

A escala 6x1 pode deixar de existir nos próximos anos, caso avance no Congresso a proposta de emenda à Constituição que reduz a jornada semanal para 36 horas e amplia o descanso mínimo para dois dias por semana. A mudança não é imediata, mas pode alterar de forma profunda a organização do trabalho e os custos das empresas.
A PEC 148/2015 foi aprovada na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) do Senado em 10 de dezembro e está pronta para votação no Plenário (Agência Senado). O texto prevê uma transição gradual até a implementação completa das novas regras.
Entender o que está em discussão é essencial para quem administra folha, contratos e planejamento financeiro.
O que propõe a PEC 148/2015
A PEC 148/2015 altera dispositivos constitucionais sobre jornada de trabalho. Hoje, a Constituição Federal estabelece:
Jornada máxima de 44 horas semanais
Repouso semanal remunerado de um dia (art. 7º, XIII e XV da Constituição Federal)
A proposta aprovada na CCJ prevê:
Redução da jornada máxima semanal de 44 para 36 horas
Aumento do descanso mínimo semanal de um para dois dias
Preferência para descanso aos sábados e domingos
Manutenção do limite de 8 horas diárias
Segundo o relatório do senador Rogério Carvalho (PT-SE), a medida pode beneficiar 38 milhões de trabalhadores contratados pela CLT.
Como seria o fim da escala 6x1 na prática
O fim da escala 6x1 não ocorreria de forma imediata. De acordo com o texto aprovado na CCJ:
No ano da publicação da emenda, as regras atuais permanecem
No ano seguinte, o descanso semanal passa para dois dias
A jornada começa a ser reduzida gradualmente
Apenas seis anos depois a nova jornada de 36 horas estará plenamente implantada
Isso significa uma transição longa. Empresas teriam tempo para se adaptar. Ainda assim, o impacto estrutural é significativo.
Quem seria beneficiado
Segundo dados citados na justificativa do relatório, com base em pesquisa da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp):
Trabalhadores com carteira assinada (CLT)
Servidores públicos
Empregadas domésticas
Trabalhadores portuários
Trabalhadores avulsos
Os trabalhadores contratados como pessoa jurídica não estariam incluídos na nova jornada. Os empregados formais representam cerca de 37% das pessoas ocupadas em 2024, segundo a pesquisa mencionada no relatório.
O salário será reduzido?
Não. O texto aprovado na CCJ mantém expressamente a vedação à redução salarial como compensação pela redução da jornada.
Isso significa que o trabalhador passaria a trabalhar menos horas semanais, mas manteria a mesma remuneração. Esse é o ponto que gera maior debate no meio empresarial.
Possíveis formatos de jornada com 36 horas
Mesmo com a redução para 36 horas semanais, o limite diário de 8 horas permanece. O próprio relatório menciona exemplos possíveis:
8 horas de segunda a quinta e 4 horas na sexta
7 horas e 12 minutos de segunda a sexta
A Constituição já permite compensação de horários por acordo coletivo. A PEC mantém essa possibilidade. Ou seja, a organização da jornada continuaria dependendo de negociação coletiva em muitos setores.
Como isso impacta a contabilidade das empresas
Aqui começa a parte sensível. Reduzir a jornada de 44 para 36 horas sem reduzir salário significa aumento indireto do custo da hora trabalhada.
Exemplo:
Salário: R$ 2.200
Hoje: 44 horas semanais
Valor da hora aproximado: R$ 12,50
Com 36 horas semanais:
Mesma remuneração
Valor da hora sobe para cerca de R$ 15,27
Isso representa aumento de aproximadamente 22% no custo da hora. Empresas que operam com turnos contínuos ou necessidade de cobertura diária podem precisar contratar mais funcionários para manter o mesmo nível de operação.
Isso impacta:
Folha de pagamento
INSS patronal
FGTS (8% da remuneração, Lei 8.036/1990)
Férias e 13º salário
Provisões contábeis
Pequenas empresas podem sentir esse efeito de forma mais intensa.
O debate sobre impacto econômico
No dia da aprovação na CCJ, o senador Izalci Lucas (PL-DF) questionou o impacto financeiro da medida, especialmente para pequenas empresas. Segundo ele, os custos adicionais ainda não estariam completamente dimensionados (Agência Senado).
Por outro lado, o relator defende que a medida pode beneficiar 38 milhões de trabalhadores formais e gerar impactos positivos na qualidade de vida e produtividade. O debate ainda está em curso.
A proposta já está valendo?
Não. Para virar regra, a PEC precisa:
Duas votações no Plenário do Senado
Aprovação com pelo menos 49 votos favoráveis
Duas votações na Câmara dos Deputados
Aprovação com pelo menos 308 votos
Somente após essa tramitação e promulgação é que a emenda passaria a integrar a Constituição. Além disso, segundo o próprio relator, o Executivo pode enviar novo projeto em regime de urgência constitucional para acelerar a discussão.
O que empresas devem fazer agora?
Neste momento, não há mudança imediata. Mas algumas medidas são prudentes:
Acompanhar a tramitação da PEC
Simular impacto financeiro da redução para 36 horas
Avaliar necessidade futura de reestruturação de turnos
Revisar contratos e convenções coletivas
Mapear atividades que exigem cobertura contínua
Escala 6x1: risco trabalhista ou tendência global?
Diversos países discutem redução de jornada. A Organização Internacional do Trabalho (OIT) já publicou estudos associando jornadas mais curtas a melhora na saúde mental e produtividade em determinados contextos.
No entanto, a aplicação depende da estrutura econômica de cada país. No Brasil, a jornada de 44 horas foi fixada na Constituição de 1988. Alterá-la significa mexer em um dos pilares da organização do trabalho.
A possível extinção da escala 6x1, por meio da PEC 148/2015, representa uma das discussões mais relevantes sobre jornada de trabalho nas últimas décadas.
A proposta prevê redução para 36 horas semanais e dois dias de descanso, sem redução salarial, com implementação gradual ao longo de seis anos.
Ainda não é lei. O texto precisa passar por votações no Senado e na Câmara. Mas, se aprovado, terá impacto direto na estrutura de custos, organização de turnos e planejamento financeiro das empresas. A discussão não é apenas jurídica. É estratégica.
Sua empresa utiliza escala 6x1 ou depende de cobertura semanal contínua? Este é o momento de acompanhar a tramitação da PEC e simular cenários. Antecipar cálculos pode evitar decisões apressadas no futuro. Fique atento às atualizações oficiais do Congresso Nacional.